Instituto Brasileiro de Museus

Museu do Diamante

Museus para a igualdade – uma pequena revisão histórica

publicado: 20/05/2020 10h52, última modificação: 22/05/2020 16h28

Desde 1977, no mundo inteiro se comemora no dia 18 de maio o “Dia Internacional de Museus”. A data foi idealizada pelo Conselho Internacional de Museus (International Council of Museums – ICOM) como uma forma de chamar atenção para o fato de os museus serem uma importante ferramenta no enriquecimento de culturas e de construção e transmissão de conhecimento. Para marcar a data, museus de todo o globo organizam eventos a partir de um tema comum proposto pelo ICOM.

A partir dessa ideia e como forma de dar maior visibilidade aos museus nacionais, o Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) resolveu estender as comemorações coordenando a Semana Nacional de Museus. Em 2020, o evento apresenta ao público sua 18ª edição, cujo tema é “Museus para a Igualdade: Diversidade e Inclusão”. Essa iniciativa propõe às instituições museológicas uma reflexão sobre as desigualdades presentes na sociedade contemporânea, bem como sobre o papel dos museus na promoção dos princípios de diversidade e inclusão.

Para tal, o Museu do Diamante – IBRAM convida seus usuários para fazer uma pequena viagem pela história de uma das instituições mais antigas criadas pelo homem: os museus. Vamos embarcar nessa aventura?

A palavra “museu” vem do termo grego mouseion, que significa Templo das Musas. De acordo com o mito de origem, o museu surgiu como o templo das nove musas, filhas de Zeus e de Mnemosine, divindade da memória. As musas eram a personificação de diferentes campos das artes e das ciências, tinham a função de preservar a memória.

Entretanto, o mouseion não foi pensado para reunir coleções que deveriam estar à disposição de toda a sociedade. Tratava-se de espaços reservados aos estudos, científicos e artísticos, dedicados à contemplação e busca de inspiração. .

Percebemos que o mouseion não é muito semelhante ao que chamamos de museus hoje, mas guardam alguns pontos em comum com aquilo que essas instituições representam.

Na imagem, “Apollo and the Muses” de Baldassarre Peruzzi, 1523.

Colecionismo: a nova moda

O colecionismo surge na Europa por volta do século XV, como consequência do Renascimento e da Expansão Marítima. Esses grandes eventos levaram o homem a descobrir a existência de um novo mundo, seja pela descoberta de novos territórios ou por proporcionar um novo olhar sobre tudo o que já se conhecia.

Nesse período, as coleções não eram organizadas com o propósito de disseminar informação, mas compreendidas como verdadeiros tesouros e utilizadas para demonstrar o poder e a riqueza de seus detentores, geralmente pertencentes à nobreza.

Ainda relacionados ao ato de colecionar, surgem e se proliferam por toda a Europa, entre os séculos XVI e XVII, os Gabinetes de Curiosidades, também chamados de Câmaras de Maravilhas. Reuniam grande quantidade de espécimes da fauna e da flora, objetos e seres até então desconhecidos, vindos de terras distantes. Sob a guarda de casas reais, humanistas, artistas ou ricos burgueses, estes gabinetes eram formados segundo a lógica da acumulação, e suas “maravilhas” eram restritas aos olhos da parcela mais abastada da população.

Ao longo dos séculos, essas coleções se especializaram e passaram a ser organizadas e classificadas a partir de critérios científicos, contribuindo com o desenvolvimento da ciência moderna. Tais coleções não eram, entretanto, abertas ao público, e não se encaixavam, portanto, na concepção que temos atualmente de museu.

Na imagem, “Engraving” de Ferrante Imperato, Dell’Historia Naturale, 1599.

O Século dos Museus

A moderna concepção de museu, enquanto espaço de salvaguarda do patrimônio a serviço do público, só passa a existir a partir do fim do século XVIII. Com a Revolução Francesa, os bens do clero e da nobreza foram confiscados e nacionalizados, ou seja, passaram a constituir um patrimônio da nação.

Para guardar estes bens foi criado o Museu do Louvre, cuja missão era acondicionar esse patrimônio, que passaria a ser exposto ao olhar do público. O Louvre pode ser compreendido como o primeiro museu segundo a acepção atual da palavra: espaço com uma coleção acessível à população, e não restrita aos olhares de nobres e eruditos.

Com o Museu do Louvre, surge a ideia de Museu Nacional: os museus passam a ser vistos como instrumentos de formação do cidadão, e ganha destaque o papel pedagógico desse tipo de instituição na construção da nacionalidade.

Esse modelo de museu se propaga por toda a Europa ao longo do século XIX – aclamado como o século dos museus – e se caracteriza pela presença de um discurso fortemente nacionalista.

Na imagem, “Projet d’aménagement de la Grande Galerie du Louvre” de Hubert Robert, 1796.

Século XX o Boom Museal brasileiro

O século XIX foi, sem dúvida, o “século dos museus”. Entretanto, nos atendo especificamente ao caso brasileiro, é no século XX que temos um fenômeno ainda mais interessante: um expressivo crescimento no número de instituições museológicas. Segundo dados do IBGE, existiam pouco mais de 20 museus no início desse século, enquanto que nos últimos anos do período esse quantitativo passava de 1.200.

No cenário brasileiro, temos no Museu Histórico Nacional uma das primeiras e mais importantes iniciativas do campo museal. Criado em 1922 por Gustavo Barroso, essa instituição assumia um discurso fortemente positivista e nacionalista, nos moldes do modelo de Museu Nacional inaugurado com o Louvre – a intenção era possuir um acervo que personificasse os valores nacionais, identificados então aos feitos militares e aos chamados “heróis da pátria”.

Em 1937, no Brasil, com a criação do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional-SPHAN (atual IPHAN) iniciou-se uma política mais ampla e oficial de proteção ao patrimônio, cujo discurso era fortemente comprometido com a criação de uma identidade nacional a partir dos valores defendidos por diversos intelectuais ligados ao Movimento Modernista.

O SPHAN também se destacou por sua política museológica, tendo criado diversos museus nas chamadas cidades históricas de Minas, como o Museu do Diamante. Para os intelectuais ligados a esse órgão, a arte Barroca e o período colonial constituíam uma “legítima” identidade nacional.

A partir da década de 1970, o campo museal brasileiro sofre uma significativa transformação com o aporte dos referenciais teóricos da Nova Museologia. Os museus passam a ser compreendidos como vetores de promoção da diversidade, da democracia e da transformação social. .

Diversificam-se então as tipologias e as narrativas encampadas por estas instituições, que passam a atuar com as memórias das minorias e das comunidades. Exemplos disso são o Museu do Maré (RJ), MUQUIFO (BH), Ecomuseu do Cipó (MG), Ecomuseu da Serra de Ouro Preto (OP), e Museu dos Kanindé (CE).

Na imagem, fotos do arquivo do Museu Histórico Nacional. @museuhistoriconacional
Foto 1 – Fachada do MHN , à direita a fachada da Casa do Trem. Entre as duas edificações um portão que dá acesso ao Beco dos Tambores, antiga rua da cidade. (Autor Desconhecido)
Foto 2 – Vista aérea da antiga torre do Arsenal de Guerra e ao fundo a Baia de Guanabara. (Autor Desconhecido)
Foto 3 – Vista aérea da fachada do museu e o Viaduto da Perimetral, recentemente demolido. (Autor Desconhecido)
Foto 4 – Vista parcial de uma das duas salas, no interior da Casa do Trem, que deram origem ao Museu Histórico Nacional, em 1922. (Autor Desconhecido)