Confira como foi a 2ª Semana dos Povos Indígenas

De 22 a 30 de abril aconteceu na cidade de Diamantina as atividades da 2ª Semana dos Povos Indígenas com uma programação histórica que ocupou seus espaços emblemáticos celebrando as culturas originárias por meio do cinema, das artes visuais, da música, da educação e da troca de saberes.

A 2ª Semana dos Povos Indígenas foi uma realização do Circuito Banco do Nordeste Cultural em parceria com o Museu do Diamante e o Lapidário das Artes, que reuniu artistas, educadores, pesquisadores e comunidades em uma programação diversa que atravessou o audiovisual, as artes visuais, a música, a educação e os saberes ancestrais.

Para além da celebração cultural, o evento cumpriu o papel de reafirmar a presença indígena na cidade e de reconhecer a continuidade viva das culturas originárias, frequentemente invisibilizadas nas narrativas sobre território.

Pintura de intervenção artística coletiva “Linguagem Materna da Terra” com Liça Pataxoop, Uakyrê Pankararu-Pataxó, Davi Tremembé e Pink Molotov. Foto: MD

Cinema, diálogo e formação: a abertura no Museu do Diamante

Na tarde do dia 22 de maio aconteceu a exibição do curta “Kakxop Pahok: as crianças cegas”, um filme de Cassiano Maxakali e Charles Bicalho, seguido de um bate-papo com Cassiano Maxakali, que aprofundou o debate sobre a produção audiovisual indígena, o cinema como ferramenta de memória e os modos próprios de narrar histórias, experiências e cosmologias.

À noite, tivemos uma conversa com os professores Josiley Souza e Emília Chamone com participação de Cassiano Maxakali e TX Braz, dedicada uma reflexão sobre os caminhos da formação acadêmica indígena, os desafios e as conquistas no âmbito universitário, destacando experiências, trajetórias e perspectivas na educação superior.

Exposição e feira de artesanato no Lapidário das Artes

Entre os dias 23 e 25 de abril, o Lapidário das Artes abriu suas portas para a exposição e feira de produtos artesanais indígenas, oferecendo ao público diamantinense a oportunidade de conhecer e adquirir peças produzidas por artesãos dos povos originários — criações que carregam em si técnica, simbologia e modos de vida.

Exposição e feira de artesanato indígena no Lapidário das Artes. Foto: MD

Noite de música: vozes, territórios e contemporaneidade

O Lapidário das Artes também foi o palco de uma noite especial de música, com apresentações que celebraram a diversidade cultural do evento. No palco, TxBraz, Serjão ST e Cledson Cordeiro protagonizaram um encontro potente entre vozes e territórios, mostrando como a criação musical indígena contemporânea — dialogando com linguagens urbanas como o rap — amplia os caminhos de circulação de narrativas ancestrais, conectando identidade, memória e questões sociais por meio de sonoridades do presente.

Cerâmica viva: oficina com Eliana Maxakali

No EPIL – Sociedade Protetora da Infância, a oficina de cerâmica conduzida por Eliana Maxakali proporcionou ao público uma vivência prática a partir dos saberes e fazeres tradicionais. O contato direto com os processos criativos, materiais e técnicas da cerâmica indígena transformou o espaço em uma sala de troca e aprendizado — um reencontro com formas de produção que carregam a memória de gerações.

Intervenção artística coletiva “Linguagem Materna da Terra”

Entre os dias 27 e 29 de abril, no bairro Bom Jesus foi realizada a intervenção artística que se tornou o símbolo maior desta edição da Semana dos Povos Indígenas: o mural “Linguagem Materna da Terra”. O trabalho insere no espaço urbano uma narrativa visual de resistência, pertencimento e continuidade cultural — e passa a integrar definitivamente a paisagem de Diamantina. Além disso, a ação também mobilizou moradores e voluntários do próprio bairro, reforçando seu caráter comunitário.

A concepção artística é assinada pelas artistas indígenas Liça Pataxoop e Uakyrê Pankararu, que junto a Saniwê Pataxoop, Davi Tremembé e Pink Molotov criaram uma composição marcada por símbolos da ancestralidade, da natureza e das cosmologias indígenas. O mural está localizado na Avenida Sílvio Felício dos Santos, 450, e pode ser visitado livremente pela população.

Pintura de intervenção artística coletiva “Linguagem Materna da Terra” com Liça Pataxoop, Uakyrê Pankararu-Pataxó, Davi Tremembé e Pink Molotov. Foto: MD

Educação indígena em debate: palestra de Saniwê Pataxoop

Na noite do dia 29 de abril, o Museu do Diamante recebeu a palestra “Métodos de Educação Indígenas”, ministrada por Saniwê Pataxoop — professor indígena do povo Pataxoop, doutorando em Educação pela FAE/UFMG e educador na Escola Estadual Indígena Pataxó Muã Mimatxi. A partir de sua trajetória acadêmica e comunitária, Saniwê apresentou métodos educativos fundamentados em práticas, valores e perspectivas próprias dos povos indígenas, provocando reflexões sobre pedagogias plurais e interculturais.

Oficina de Têhêy: saberes ancestrais na escola

No dia 30 de abril, último dia do evento, o Museu do Diamante com as crianças da Escola Municipal Jalira Lucchesi de Miranda uma experiência que marcou o encerramento da programação: a Oficina de Têhêy, conduzida por Liça Pataxoop — educadora, artista e liderança do povo Pataxoop.

O Têhêy, instrumento tradicional de pesca, tornou-se o elemento central de uma prática pedagógica profundamente enraizada na oralidade e nos saberes ancestrais. Mais do que ensinar o uso do instrumento, a oficina abriu um espaço para refletir sobre os processos de partilha, sobre como os conhecimentos circulam e se constroem coletivamente nas comunidades indígenas — e o quanto essas epistemologias têm a oferecer ao campo da educação contemporânea.

Ao longo de nove dias, a 2ª Semana dos Povos Indígenas deixou marcas concretas em Diamantina: um mural que passa a compor a paisagem urbana do Bairro Bom Jesus, crianças que vivenciaram saberes ancestrais por meio do Têhêy como símbolo de partilha e aprendizado coletivo, moradores que se tornaram parte de uma criação comum, e uma cidade que se encontrou, por esses dias, com a riqueza e a continuidade viva das culturas originárias.

Realização:

Circuito Banco do Nordeste Cultural · Museu do Diamante · Lapidário das Artes · Diamantina, 22 a 30 de abril de 2025.