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Museu do Diamante

Halloween – Lendas e Assombrações de Diamantina

publicado: 26/10/2020 09h43, última modificação: 07/12/2020 16h57

O Dia das Bruxas, conhecido como Halloween, é uma data celebrada no dia 31 de outubro. Embora a tradição de sair de casa em casa pedindo doces e vestindo fantasias assustadoras seja difundida principalmente nos Estados Unidos, atualmente ela vem se tornando cada vez mais comum em todo o mundo. Para comemorar essa data, o Museu do Diamante preparou uma programação aterrorizante, que além de levar ao seu público um pouco das origens históricas da tradição do Halloween, irá trabalhar diversas lendas da região de Diamantina que falam sobre fantasmas, aparições e tesouros escondidos. Estas lendas pertencem à tradição oral das comunidades e, no caso de Diamantina, estão muitas vezes ligadas ao universo do garimpo e da escravidão, revelando aspectos significativos da sociedade e da cultura desta região. 

HALLOWEEN – LENDAS E ASSOMBRAÇÕES DE DIAMANTINA 🧟☠️

O Dia das Bruxas, conhecido como Halloween, é uma data celebrada no dia 31 de outubro. Embora a tradição de sair de casa em casa pedindo doces e vestindo fantasias assustadoras seja difundida principalmente nos Estados Unidos, atualmente ela vem se tornando cada vez mais comum em todo o mundo.

Essa tradição tem suas origens nas culturas pagãs e celtas, que celebravam o fim do verão com ritos nos quais se pedia fertilidade para as colheitas e abundância de alimentos. No entanto, houve uma tentativa de cristianização destes ritos, com a fixação do Dia de Todos os Santos em 1º de Novembro, pelo Papa Gregório III durante o século VIII. Assim, o “All Hallows Eve”, termo que deu origem ao Halloween, designava a véspera (“eve”) do Dia de Todos os Santos (“hallows”).

Segundo o historiador Carlo Ginzburg, a tradição das “gostosuras e travessuras”, na qual jovens fantasiados passam de casa em casa ameaçando os moradores com travessuras caso não tenham seu desejo por doces atendidos, remonta a festividades greco-romanas – as Saturnalias – e sua permanência na cultura ocidental pode ser interpretada por meio dos mistérios que cercam o mundo dos mortos: uma crença de que eles poderiam intervir na vida das pessoas por meio de favores ou penitências.

A relação com o sobrenatural permeia o nosso imaginário e deu origem a diversas lendas que ocorrem nas mais variadas localidades. Assim, vamos celebrar o Halloween no Museu do Diamante falando de algumas lendas e assombrações recorrentes na cidade de Diamantina. Além de serem assustadoras, elas nos ajudam a compreender melhor alguns aspectos sociais e culturais da cidade. Acompanhe os próximos posts para embarcar nessa aventura horripilante!

Fontes:
Carlo Ginzburg. História Noturna – Decifrando o Sabá. São Paulo: Cia das Letras, 2012.
BBC News Brasil

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OS MISTÉRIOS DA RUA DAS MERCÊS

Os relatos sobre fantasmas pertencem à tradição oral das comunidades e, no caso de Diamantina, estão muitas vezes ligadas ao universo do garimpo e da escravidão, revelando um pouco da história e da cultura da região. Uma das lendas mais conhecidas se refere à Procissão dos Mortos.

A religiosidade popular nas áreas mineradoras, sob o impacto das contribuições culturais africanas, resultou na crença de que a alma dos mortos permanece próxima à dos vivos, e que estes espíritos poderiam intervir no mundo cotidiano.

Nas áreas de mineração circulavam inúmeras narrativas sobre almas penadas de pessoas que morreram em consequência de violências, traições e injustiças, e que eram portanto espíritos atormentados em busca de reparações.

Segundo o historiador Carlo Ginzburg, o tema da procissão dos mortos, com o aparecimento ameaçador de espíritos inquietos, é recorrente na Europa medieval e remete a extratos culturais mais antigos, provenientes do folclore celta e da Antiguidade.

Na tradição oral de Diamantina, ainda circulam entre os mais velhos “causos” sobre a Procissão dos Mortos na Rua das Mercês: seria uma procissão de espíritos de pessoas escravizadas, arrastando ruidosamente pesadas correntes, até se dissolver na altura da Igreja das Mercês. Os moradores poderiam ouvir o som da caminhada, mas só seria capaz de ver o cortejo aqueles que morreriam naquele mesmo ano.

Outro “causo” de assombração envolvendo a Igreja das Mercês que circula no imaginário diamantinense fala da Noiva das Mercês, uma jovem vestida de branco que rondaria a Igreja durante as noites. Em algumas versões da lenda o noivo teria morrido nas vésperas do casamento; em outras a noiva teria sido abandonada.

Ficou com medo? Então não perca os próximos posts!

Fontes:
Marcos Lobato Martins. Assombrações de Diamantina. 2009. Disponível em: http://historianovest.blogspot.com/…/assombracoes-de…

Museu do Diamante/Ibram – Oficina Museu e memória: lendas e história a partir da oralidade, realizada em 2011 e ministrada por Jaqueline Salgado

Carlo Ginzburg. História Noturna – Decifrando o Sabá. São Paulo: Cia das Letras, 2012.

Instituto Brasileiro de Museus – Ibram

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MÃE DO OURO

Numa região de origem mineradora como é o caso de Diamantina, é natural que muitas das lendas que povoam o imaginário local estejam relacionadas ao universo do garimpo. Para o historiador Marcos Lobato, o sobrenatural possuía um papel destacado dentro deste universo. Os mineradores acreditavam que o sortilégio seria um elemento essencial de seu ofício, precisando lidar com sinais sobrenaturais, adivinhações e sonhos para encontrar o lugar da boa cata.

É neste contexto que deve ser interpretada a lenda da Mãe do Ouro: segundo o antropólogo Câmara Cascudo, a Mãe do Ouro, figura recorrente no folclore das regiões mineradoras, é “indicadora das jazidas de ouro, madrinha dos veeiros, padroeira dos filões. Aparece em forma de chama ou meteorito. Os relâmpagos indicam a sua direção e os trovões revelam a sua cólera”.

No folclore brasileiro a Mãe do Ouro é em geral descrita como uma bola de fogo associada à figura de uma bela mulher. Trata-se de uma personagem ambígua, pois ao mesmo tempo em que ela conhece a localização exata dos minerais subterrâneos, tendo o poder de guiar o garimpeiro até o tesouro escondido, é também famosa pela cólera que dirige àqueles que a desafiam ou ameaçam. Cuidado!!

Fonte:
Luís da Câmara Cascudo. Mitos Brasileiros. Rio de Janeiro: Caderno nº 6 MEC/CDFB
Marcos Lobato Martins. Assombrações de Diamantina. 2009. Disponível em: http://historianovest.blogspot.com/2009/03/assombracoes-de-diamantina.html
O TESOURO DO PADRE BRASÃO

O tema dos tesouros escondidos é bastante recorrente nas lendas das regiões mineradoras, e remonta ao Período Colonial, contexto em que o contrabando de pedras preciosas era comum em face dos altos impostos exigidos pela Metrópole Portuguesa. Para o historiador Marcos Lobato, estas lendas também se relacionam a um senso de justiça popular, segundo o qual as pessoas humildes e trabalhadoras serão recompensadas com a descoberta de riquezas.

Nessa chave pode ser interpretada a lenda do Padre Brasão, que teria enterrado ao pé de uma jabuticabeira “duas garrafas de ouro e três chifres de diamante”, segundo artigo do jornal local A Estrela Polar, de 1972. Em 1909, o historiador José Teixeira Neves menciona uma lenda recolhida na tradição oral segundo a qual o Padre Brasão teria aparecido para uma cortadora de lenha indicando-lhe onde havia enterrado seu tesouro, e ordenando-lhe que não olhasse para trás. Ao virar-se, a mulher teria se deparado com um esqueleto. Outra história de fantasmas que indicam tesouros é narrada pelo memorialista diamantinense Aires da Mata Machado Filho, sobre uma mulher que teria indicado a uma beata no Beco dos Beréns o local onde estaria enterrada uma garrafa de diamantes.

Embora o tesouro do Padre Brasão e da beata do Beco dos Beréns nunca tenham sido encontrados, os “causos” de tesouros escondidos, remanescentes do período colonial, povoam o imaginário local até a atualidade. Muitos são os relatos de moradores a quem teriam aparecido fantasmas a indicar o esconderijo de ouro e diamantes, e muitos são aqueles que teriam enriquecido com a descoberta de tesouros em suas próprias casas. Em 1969, por exemplo, operários que trabalhavam no alargamento de um muro na Rua Arraial dos Forros encontraram uma quantidade enorme de moedas antigas de ouro e prata. E você, será que tem um tesouro escondido aí na sua casa??

Fontes:
Antonio de Paiva Moura. A dinâmica cultural e social através das lendas e mitos de Minas Gerais. Revista da Comissão Mineira de Folclore. Nº 21. Belo Horizonte, 2000.

Marcos Lobato Martins. Assombrações de Diamantina. 2009. Disponível em: http://historianovest.blogspot.com/2009/03/assombracoes
CASAS MAL ASSOMBRADAS

Para fechar nossa série de lendas de terror, não poderia faltar o tema da Casa Mal Assombrada, não é mesmo? Em 1902, o Bispo Coadjutor de Diamantina, Dom Joaquim Silvério de Souza, passou pela Paróquia de São Sebastião de Água Vermelha. No dia 11 de junho, registrou no seu diário o seguinte caso:

“Um pai de família que se queixava de estar sua casa sob ação diabólica. A vítima principal era uma filha de 14 anos. Ela ouvia sempre frases de convite para sair de casa, e pessoas de fora viam cair pedras na sala, objetos caindo das paredes no chão, machados, facas, ferros de coador de café, torrões de terra atirados nas pessoas. Quando a mocinha não estava em casa, tudo cessava. O homem nos contou que o povo dizia que o invisível era um tal de Romãozinho. O menino, a mandato do pai, foi buscar uma chibata ou taca para bater na mãe, que lhe rogou uma praga de não ir para o céu nem para o inferno. Ele ficou vagando pela terra, a bolir ora com um, ora com outro. O tal Romãozinho é muito falado por este norte, e já pelos lados de Lençóis e Montes Claros ouvimos falar de suas proezas. Procurei descobrir se não seria algum tratante, brincador, que atirava as pedras, mas o homem afirmava sempre que não era possível ser pessoa viva, porque tudo examinava bem com muitos outros. Na casa desse pai, o Romão tem quebrado panelas e pratos”. Para acalmar o pai de família, dom Joaquim Silvério de Souza visitou a casa assombrada por Romãozinho e rezou com os moradores e vizinhos.

Outra lenda de assombrações que adentram as casas é relatada por Helena Morley em 1983: “Está correndo na Boa Vista que anda por aí um ladrão muito malvado, que passou em Diamantina e os soldados não puderam pegar. Ele mata para roubar, e quando os soldados chegam, se é em casa, ele vira vassoura, cadeira ou outra coisa; se é no mato, ele vira cupim. Todos vivem apavorados”

Foto do perfil de museudodiamante
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Mais adiante, Helena Morley voltou a escrever sobre esse misterioso ladrão, contando como ele havia escapado do povo do Rio Grande, transformando-se em cupim perto do Glória. Segundo a menina, o povo acreditava que o malfeitor deveria ter parte com o diabo. Mais do que isso, deveria se tratar de um espírito mal.
Fonte:
Marcos Lobato Martins. Assombrações de Diamantina. 2009. Disponível em: http://historianovest.blogspot.com/2009/03/assombracoes-de-diamantina.html