Instituto Brasileiro de Museus

Museu do Diamante

Mostra Carnacultura Virtual

Acompanhem nas nossas redes sociais! O carnaval é uma das festas mais tradicionais do povo brasileiro. Trazida pelos portugueses em meados do século XVI, algumas características do que conhecemos hoje como festejos carnavalescos passaram por intensas transformações ao longo do tempo.  O Museu do Diamante/Ibram reconhece a importância histórica do carnaval diamantinense e apresenta, no […]

publicado: 03/02/2021 10h01, última modificação: 17/03/2021 20h05

Acompanhem nas nossas redes sociais!

Fotos dos carnavais entre os anos 1996 a 2020, fornecidas pela Diretoria Patrimônio Cultural de Diamantina/MG.

O carnaval é uma das festas mais tradicionais do povo brasileiro. Trazida pelos portugueses em meados do século XVI, algumas características do que conhecemos hoje como festejos carnavalescos passaram por intensas transformações ao longo do tempo. 

O Museu do Diamante/Ibram reconhece a importância histórica do carnaval diamantinense e apresenta, no período de 03 a 15 de fevereiro de 2021, a Mostra CARNACULTURA VIRTUAL. As informações foram baseadas nos periódicos do Pão de Santo Antônio, que começaram a circular em 1906 e se encontram no Museu de Tipografia do Pão de Santo de Antônio em Diamantina; no Dossiê de Registro da Banda Sapo Seco realizado por Márcia Dayrell, historiadora e técnica em patrimônio cultural na Secretaria de Cultura, Turismo e Patrimônio da Prefeitura Municipal de Diamantina fornecido pela Diretoria Patrimônio Cultural da SECTUR. Durante o período de veiculação da  Mostra falaremos sobre o contexto histórico do carnaval na cidade de Diamantina, sobre os blocos carnavalescos existentes, a centenária Banda do Sapo Seco e o seu tombamento histórico.

Fotos dos carnavais entre os anos 1926 a 1954, fornecidas pela Diretoria Patrimônio Cultural de Diamantina/MG e Arquivo do Facebook Banda Sapo Seco, autorizado por Ratin.

Os jornais são importantes fontes históricas, e por meio deles podemos conhecer fatos  relevantes da história local. Nos periódicos do Pão de Santo Antonio é perceptível como o carnaval era visto por uma perspectiva religiosa, considerado como festejo pagão que antecede o período quaresmal, como foi apontado no exemplar publicado em 1915: 

Carnaval é abreviatura destas duas palavras latinas: caro, vale, adeus, carne. Este adeus se refere à abstinência da carne, na quaresma que entra (Jornal Pão de S. Antonio – 15/02/1915).  

 A primeira expressão do carnaval no Brasil foi o entrudo, vivenciado inicialmente pelas famílias patriarcais e popularizado em meados do século XIX, quando passou a ser manifestado nas ruas das cidades brasileiras. A brincadeira do entrudo consistia no lançamento de água, farinha, lama, ovos e limões de água perfumada entre os participantes.

Este anno, em Diamantina, houve quem tivesse saudades dos tempos antigos nos dias de Carnaval. Jogaram limões de cêra e até àgua potável, mas sem creolina(Jornal Pão de Santo Antônio – 01/03/1925).

A brincadeira carnavalesca do entrudo, passou a ser criticada severamente a partir de meados do século XIX pela elite brasileira, sendo considerada uma prática violenta e ofensiva aos valores morais e sociais. 

Fontes: Jornal Pão de Santo Antonio, Diamantina- MG, ano 17, n.37, 01 março 1925, 2p. Jornal Pão de Santo Antonio, Diamantina-MG,  ano 8, n. 1, 15 fevereiro de 1915, 1p. 

Fotos dos carnavais entre os anos 1972 a 1978, fornecidas pela Diretoria Patrimônio Cultural de Diamantina/MG e Arquivo do Facebook Banda Sapo Seco, autorizado por Ratin

No início do século XX, com a modernização e o progresso do carnaval implantado pela cidade do Rio de Janeiro, o festejo foi também incorporado e adaptado em Diamantina, com a intenção de tornar o carnaval uma festa “moderna”, visando abandonar algumas práticas consideradas inadequadas, como os tradicionais entrudos.

Em Diamantina, os bailes ocorriam no Teatro Santa Izabel, onde as famílias mais abastadas ocupavam os camarotes, o salão e a caixa, enquanto aos demais se reservavam as galerias, separadas do salão por uma tapagem que só não ocultava as escadas de acesso. Essa divisão era conhecida por cinzeiro. Os bailes carnavalescos no Teatro Santa Izabel ocorreram até o ano de 1912, quando o teatro foi desativado. Além do baile, era costume que acontecesse, nos três dias de carnaval, um desfile de máscaras nas ruas centrais da cidade.

Havia forte resistência dos grupos sociais populares que continuavam a manter ativas suas próprias brincadeiras durante os dias de folia, representando simbolicamente suas identidades, visões de mundo e os desafios de sua sobrevivência enquanto citadinos.

No final do século XIX houve a manifestação do ‘Zé Pereira’ partindo do Largo do Rosário ao som de zabumbas, caixas, pratos, buzinas, latas de fósforo e outros instrumentos musicais, entretanto não teve continuação.

Fotos dos carnavais entre os anos 1972 a 1978, fornecidas pela Diretoria Patrimônio Cultural de Diamantina/MG e Arquivo do Facebook Banda Sapo Seco, autorizado por Ratin

Após o fechamento do Teatro Izabel, havia dois clubes onde ocorriam os bailes carnavalescos. A elite diamantinense brincava o carnaval no Clube Acayaca, enquanto a camada média da população frequentava o clube União Democrata. Conforme o depoimento de Ademir Passos dos Santos:

Tinha o carnaval de clube que era o carnaval da elite, no Clube Acaiaca, na Rua da Quitanda. E a turma mediana ficava no Clube Assedi, que era um clube do pessoal do correio telégrafo. Era perto do palácio do Bispo (Depoimento de Ademir Passos dos Santos, conhecido por Ademir Pão em outubro de 2019).

Na segunda metade do século XX, o carnaval de Diamantina passou a contar também com desfiles de escolas de samba locais, como relembra Ademir Pão: “Dos anos de 1970 para cá, as escolas de samba foram reativadas. Tinham duas escolas de samba de bairro em Diamantina. O bairro do Rio Grande com a Escola de Samba Unidos do Rio Grande e do bairro Arraial de Baixo chamada Unidos do Arraial de Baixo. Eles faziam muita fantasia bonita, a comunidade ajudava. Tinham baterias muito boas e traziam ritmos diferentes, um do bairro e outro do outro. Quando chega na década de 1980 as Escolas de Samba dão uma parada. Em 1975, na Vila Operária, que era onde eu morava, foi criado o Unidos da Mangueira. Mas tinham várias outras Escolas de Samba aqui na época. Aqui era um Rio de Janeiro em miniatura. Tinha a Escola de Samba de Dona Alzira, era uma compradora de Sempre-Vivas, ela era do Rio de Janeiro. E ela fez uma Escola de Samba aqui com muito porta estandarte.”  (Depoimento de Ademir Passos dos Santos cedido a Diretoria Patrimônio Cultural de Diamantina, em outubro de 2019)  

Fonte: PREFEITURA MUNICIPAL DE DIAMANTINA. Dossiê Banda Sapo Seco QUADRO II C- PROTEÇÃO – PROCESSOS DE REGISTRO DE BENS IMATERIAIS, NA ESFERA MUNICIPAL – BANDA FOGOSA DO SAPO SECO. Diamantina, 2019.

Fotos de alguns blocos de carnavais que desfilaram no ano de 2020, retiradas do Facebook da página do Viva Diamantina e do site da Prefeitura Municipal de Diamantina

Novas práticas carnavalescas foram incorporadas ao longo do tempo,  no século XIX os cordões, blocos carnavalescos e as marchinhas; no século XX os afoxés, o frevo, as escolas samba e o trio elétrico. Muitas dessas práticas resistiram ao tempo, como é o caso dos blocos carnavalescos.

Diamantina preserva essa tradição, no carnaval de 2020 houve mais de 40 blocos carnavalescos alegrando e desfilando pelas ladeiras históricas.. Entre os participantes dessa folia estava a tradicional Banda Fogosa do Sapo Seco, reconhecida como patrimônio imaterial de Diamantina.

Relatos de Edivaldo falando sobre a Banda do Sapo Seco e a sua importância histórica, ambos disponibilizados pela Diretoria Patrimônio Cultural de Diamantina/MG.

A Banda do Sapo Seco teve seu surgimento no início do século XX e perdura até os dias atuais. Os fundadores da banda foram amigos e membros da família de Elias Luiz de Carvalho (conhecido como Elias Sapo Seco). Desde o seu surgimento a banda trajava alegorias artesanalmente elaboradas e máscaras artisticamente confeccionadas por seus integrantes.

Segundo Carlos Adriano Botelho Neves, conhecido por Ratin, a origem do nome da banda do Sapo Seco surgiu através de uma turma de amigos que saíam para caçar, um deles se chamava Elias Luiz de Carvalho e tinha o apelido de Elias Sapo Seco. Conforme ele conta: “Um dia, numa caçada pros lados dos Cristais na Duas Pontes que dá acesso para o Biribiri quando estavam lanchando um dos caçadores gritou “o Sapo Seco” os outros foram e falaram taí o nome para a Banda”. 

Elias Luiz de Carvalho – vulgo Elias Sapo Seco, nasceu em 20 de Julho de 1901 e faleceu em 11 de Fevereiro de 1942. Pedreiro e carpinteiro, Elias foi morador do bairro Sapo Seco, hoje bairro Cazuza. Por razão de toda a sua família ter morado naquele local, todos ficaram apelidados de Sapo Seco. Mais tarde esse apelido veio a causar o título na banda que existia na época de seu nome – Banda do Sapo Seco.

Relato de Luiz Poranga falando sobre a Banda do Sapo Seco e a sua importância histórica, ambos disponibilizados pela Diretoria Patrimônio Cultural de Diamantina/MG.

A Banda do Sapo Seco sempre saiu  pelas ladeiras de Diamantina nos domingos e nas terças-feiras de carnaval durante o período da tarde. Sua formação é composta por homens que tenham completado a maioridade e que saem fantasiados e mascarados em todo o trajeto escolhido. A primeira formação da Banda, ainda nos anos de 1920, era composta por cerca de 12 pessoas.

As máscaras foram criadas para que ninguém soubesse quem estava saindo. Não podiam tirar a máscara no trajeto, tanto na saída quanto na entrada. Só na terça-feira, na volta era que se tirava as máscaras. Às vezes, nem mesmo os integrantes sabiam quem participava. Desde a fundação da Banda, conta-se que eram proibidas a participação das mulheres e das crianças. Apenas homens com maioridade podiam participar do grupo.

A banda, desde o seu início, realizava alegorias ou fantasias que satirizavam alguma situação política ou algum acontecimento da cidade ou que tivesse sido marcante para a sociedade de modo geral.

Desde o ano de 1993, Carlos Adriano Botelho Neves, conhecido como Ratin, sai fantasiado de personalidades importantes e de figuras caricatas de Diamantina. Nos dias atuais, muitas pessoas querem assistir o desfile do Sapo Seco para verem a fantasia que Ratin irá apresentar ao público.

Relato do Dilton Lemos falando sobre a sua participação na Banda Fogosa do Sapo Seco.

A banda do Sapo Seco, com o passar do tempo, tornou-se uma forte tradição no município de Diamantina, atraindo a participação dos moradores e de pessoas que vêm de longe para assistir a expressão cultural. Pensando na história de longas décadas do Sapo Seco, é dado início ao plano de salvaguarda.

Em relação à descrição do bem imaterial Banda do Sapo Seco é importante pontuar que trata-se de uma forma de expressão que possui considerável relevância no que diz respeito aos aspectos culturais e sociais de Diamantina. Essa importância é percebida pela história da banda, que teve seu surgimento no início do século XX, sempre com a participação e envolvimento de considerável número de membros da comunidade local.

Desde o ano da fundação da banda, em 1923, seus participantes saem mascarados. Inicialmente, o intuito da máscara era esconder para o público geral, quem eram os envolvidos com a Banda do Sapo Seco, para que suas identidades fossem protegidas. Entretanto, mesmo com esse objetivo primeiro, as máscaras também tinham o objetivo de causar estranhamento e impacto no público que assistia o desfile. As máscaras são extravagantes e caricaturais. A confecção e o uso das máscaras caracteriza-se como um elemento tradicional da Banda do Sapo Seco e carrega a identidade e a memória da origem desta forma de expressão. Atualmente, a máscara mais comum é confeccionada com jornal e grude. A ordem do desfile se inicia com a imagem do Sapo na frente, em seguida segue-se com as bandeiras da Banda acompanhada dos integrantes e por último vem a banda do Sapo Seco. Desde o ano de 1926, pelo menos, a Banda do Sapo Seco já tinha uma bandeira com os dizeres: “Banda de Música Fogosa Sapo Seco”. Atualmente a banda possui duas bandeiras: uma vermelha e uma branca. A mais antiga e tradicional é a bandeira vermelha que fica guardada com o folião Ratin.

A Banda Fogosa do Sapo Seco está registrada como Bem Cultural de natureza Imaterial, na esfera municipal, inscrito no Livro das Formas de Expressão, número de inscrição 01/2019, Volume 01, F. 76, na data de 28/11/2019, passando, a partir de então, a ser considerada Patrimônio Cultural de Diamantina. 

Fonte: PREFEITURA MUNICIPAL DE DIAMANTINA. Dossiê Banda Sapo Seco QUADRO II C- PROTEÇÃO – PROCESSOS DE REGISTRO DE BENS IMATERIAIS, NA ESFERA MUNICIPAL – BANDA FOGOSA DO SAPO SECO. Diamantina, 2019.